O dia que comunguei com os olhos

Na missa de ontem eu não comunguei. Não estava preparado. Sei que devo me confessar antes. Mas na hora da comunhão eu rezava, cantava e balançava o João que estava no meu colo e teimava de brincar de cavalinho para espantar o sono que tinha.

Então, eu vi a ministra da eucaristia se dirigir até uma mãe que estava com duas crianças. Uma em uma cadeira de rodas. Com alguma deficiência mental. Foi oferecido o corpo de Cristo à mãe, que comungou tranquila e conscientemente. E depois a jovem na cadeira de rodas. Que comungou com o olhar atento e auxílio gentil da mãe para que nenhuma partícula se perdesse e que a hóstia pudesse ser ingerida perfeitamente.

E as duas encostaram a cabeça uma na outra. Testa com testa, os olhos próximos e fechados. A mãe pegou o folheto e cobriu a cabeça das duas, protegendo do sol. A igreja estava tão cheia que acompanhávamos a missa do lado de fora. O irmão segurava o braço da irmã na cadeira. E eu pensei: é como se eu estivesse vendo uma obra de arte, ouvindo pela primeira vez uma sinfonia de Beethoven ou contemplando o Mont Saint Michel na França. Era como se eu estivesse lendo uma página que nunca tinha lido no evangelho. Como se tivesse me chegado as mãos uma foto de alguém que eu amava muito e que já não lembrava o rosto.

Não sou bom com as palavras apesar de amá-las. Mas, correndo o risco de ser teologicamente um herético, a sensação que me veio era que o Cristo crucificado sobre o altar, e que é para onde tantas vezes fixo meu olhar durante a missa, havia deixado seu lugar. E a Cruz vazia só me fazia procurá-lo por entre as gentes e encontrá-lo ali, tampando o sol sobre aquelas duas. Num abraço de sombra reconfortante.

Elas comungaram. E de certa forma, eu também. E uma lágrima correu. E o João enxugou e riu. E ri também. E eu partilho aqui para vocês.

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