Ser pai e ser um ministro de música: uma reflexão no dia dos pais

Sou filho, músico, marido e há um ano e sete meses me tornei pai. Nesse caminho percorrido e ainda sendo trilhado, de que forma a paternidade me fez um músico melhor, um cristão mais pleno? Se a música além de expressão de ideias e sentimentos, é também uma forma especial de memória, de que maneira todas as experiências que tenho passado tem construído um artista mais dedicado e um ministro de música mais apaixonado?

Nasci em uma família de músicos. Meu pai é músico e o pai dele também havia sido. E eu tão cedo percebi que, apesar de todo amor que sentia pela música, não seria fácil esta vocação. Logo nas primeiras aulas o veredicto: você não tem ouvido musical. Referia-se a minha incrível dificuldade de perceber as alturas sonoras. Mas o amor a música foi mais forte que minhas inabilidades. Continuei estudando.

Tornei-me músico formado, gravei, me apresentei em concertos e shows, dei aulas e até escrevi sobre música, publicando 3 livros. Casei-me com uma menina linda e generosa. E algum tempo atras ela me revelou: estamos grávidos!

E o João nasceu. Me enchendo de medos e confianças. Certezas e contradições. Tirando minhas, já poucas, noites de sono mas semeando inúmeros sonhos. Meu filho me lembra a todo momento que a vida é um dom, é um sopro e é sempre surpreendente.

João segurou nas minhas muletas (sou deficiente físico mas isso é outra partilha…) e começou a andar. Me mostrando que a vida é jazzisticamente um improviso do aqui e agora. E com o João descobri que não importa o quanto fazemos e sim quem somos. E somos sempre aquilo ou aquele a quem amamos.

Sou um pai sem respostas. A paternidade me deu silêncios respeitosos dos meus limites intelectuais, das minhas dúvidas de fé, das fragilidades da minha esperança. Mas também aprofundou em mim uma confiança em Deus. Deus Pai, que ampara nossos passos mesmo quando permite nossas quedas. Que alimenta na hora certa sem satisfazer irresponsavelmente nossos desejos. Que vela nosso sono cantando em nossa alma. Que se dá sem medida, perdoando sempre, corrigindo quando preciso, educando com sensibilidade.

A paternidade tem me feito um músico melhor por me fazer ver que não importa o que deixarei, se o que ficar de mim puder ser roubado ou esgotado. Nada quero deixar para que meu filho ou as próximas gerações possam consumir. Quero, antes, deixar algo que possa consumar uma vida bem vivida. Dias bem passados. Não quero deixar herança. Quero deixar um legado.

Augusto Cezar

Faça um comentário