Você pode se tornar um compositor! 5 dicas para começar!

Não, infelizmente eu não ouvi essas palavras motivadoras e assertivas. Desde sempre eu parti do princípio que a habilidade de compor não faz necessariamente um compositor. Talvez tenha sido pelo estudo na faculdade de música que me fez debruçar sobre regras, estruturas e procedimentos melódicos e harmônicos. Toda esta formação não me fez produzir algo que pudesse reconhecer como sendo uma composição original. Faltava alguma coisa e eu assumi o paradigma que compositores são seres inatos. Nascem com talentos congênitos. Eu não havia nascido compositor. Paciência.

Mas um dia transbordou dentro de mim. Não, de novo, não foi uma torrente de inspiração divina, uma centelha criadora. Foi inveja. Quando me perguntam como comecei a compor sempre respondo: comecei por inveja. Inveja confessada principalmente do meu parceiro de banda Fred Pacheco, compositor de tantas canções maravilhosas. A inveja foi tanta que me propus um desafio. Por um mês, eu iria me reservar de 7:00 as 9:00 todos os dias para compor uma canção. Eu ficava sozinho em casa, na frente da tela em branca do computador, violão no colo e uma xícara de café com leite nas mãos.

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O esforço foi recompensado e o álbum seguinte da banda DOM contou com várias parcerias minhas. De lá pra continuei e aprendi algumas coisas. Conhecimento bom é conhecimento partilhado. Aqui vão algumas dicas:

1 – Todos temos pontos fortes e pontos fracos!

Existem aqueles que têm mais facilidade melódica, outros são mais hábeis com a construção da letra. Alguns tem especial capacidade para emplacar aquele refrão arrebatador e outros sabem como ninguém desenvolver uma estrofe, apresentando personagens e roteiro. Conheça seus pontos fortes e fracos. Assim, mesmo não sendo o melhor dos nadadores, entrará no mar com muito mais segurança de quem sabe seus limites e dos perigos que podem ocorrer.

2 – Conte uma história

Todos contamos histórias. Uma canção é principalmente uma história. Não tenha pressa em terminar a narrativa, em dar por acabada. Mas também não queira narrar o Ulysses do James Joyce em uma canção de 3 minutos. Seja objetivo em definir a ideia principal. Se puder resumir em uma frase ou uma palavra será fantástico! Aliás, os melhores títulos de canções conseguem sintetizar a ideia principal da canção. Seja específico.

3 – Saia da zona de conforto

Nem toda canção que você fizer será a canção que arrebatará corações, trilha de grupos de oração e figurinha carimbada nos folhetos de música das missas dominicais. Muitas canções serão apenas exercícios. Explore estilos, ritmos, paisagens, instrumentos, tudo noque possa estimular seu aprendizado. E mantenha-se determinado! Apesar dos resultados. Edu Krieguer se propôs um desafio: compor uma canção por dia todos os dias durante um ano. Ao final, ele deveria estar com um repertório para vários CDs não é? Não, ele mesmo reconhece que se salvaram meia dúzia de três ou quatro. Mas o exercício fortaleceu seu processo criativo.

4 – Criatividade é um processo

Criatividade é um processo. Entendi logo cedo isso quando percebi que muitos compositores trabalhavam em diversas composições ao mesmo tempo. Na música clássica todos os grandes nomes, de Bach a Stravinsky, produziam em paralelo. Compositores populares muitas vezes se esquecem de que isso é uma possibilidade bastante interessante. No ano em que comecei a tentar aprender a compor, dividi meu tempo também com a atividade de escritor além de músico da banda DOM. E uma e outra se beneficiaram desta concomitância. Também na composição foi comum pra mim trabalhar canções em paralelo. Especialmente, no momento de finalização, próximo da gravação de algum CD. Muitas canções que faço vão se construindo lentamente. Às vezes, fico meses apenas com uma estrofe. Termino outras canções e só depois de algum tempo aquela estrofe inicial ganha um refrão e pode ser então finalizada. Como eu trabalho bastante em parcerias tenho muitas músicas em processo e que caminham em paralelo.

5 – Seja você 

Muita gente me pergunta por quê tenho tantas citações de Santo Agostinho em minhas canções. Ou o por quê de eu falar tanto sobre o sofrimento, sobre o silêncio, sobre a canção, sobre o amor, etc. A resposta é óbvia: tudo isso faz parte do meu cotidiano interior. Ser você pode parecer fácil mas não é. Estamos todos condicionados pela forma como nos vemos. Mas todos podemos ser mais do que aparentamos e também podemos mudar, transformar nossa forma de pensar e agir e falar. Mas uma coisa aprendi com meu filho João, a gente aprende a ser nós mesmos tentando, experimentando, errando, ousando, etc.

Talvez você se considere um compositor amador. E por isso mesmo não acredite que precise se dedicar mais ou melhor a composição, embora eu duvide porque você chegou até este ponto deste texto 🙂 . Mas vamos partir deste pressuposto. Afinal, você não ganha a vida com isso e não tem pretensões profissionais. Meu conselho é: sempre se veja como um amador. Outro dia, um amigo me disse que faria estes ou aqueles ajustes em sua rotina de trabalho, se fosse um profissional da composição. E ao perguntar-lhe sobre qual a diferença que ele via entre um amador e um profissional percebi que eu preferia ser sempre um amador. A própria palavra guarda um sentido profundo: aquele que ama, que não tem vergonha de arriscar, não se frustra com o resultado porque é apaixonado pelo caminho. Pelo processo. Criatividade é processo. Mas o fato de se ver como um amador não quer dizer que você não pode e deva melhorar. Fazemos música por amor e o amor não tem medidas. Como diz Santo Agostinho: a medida do amor é amar sem medida.

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