Artistas de nós mesmos

Artistas de nós mesmos

No rádio do carro tocava uma canção. Ao meu lado Aline cantava animada. Ao final, eu disse: que canção, hein? E ela me surpreendeu: imagina se não houvesse essa música. No mundo ficaria faltando alguma coisa se não tivessem composto essa canção. O mundo não seria o mesmo.

Eu concordei.

Ser artista é contribuir para a Criação. Dar ao mundo coisas que nele faltam. Mas, de certa forma, todos somos artistas das nossas próprias vidas. Damos ao mundo aquilo que percebemos que lhe falta. Aquela dedicação e carinho, aquela suavidade ou mesmo tenacidade. Um pouco de compaixão onde houver intolerância. Um pouco de paixão onde houver desinteresse.

Pensei na minha vida. Estarei contribuindo, retribuindo ou distribuindo? Ou serei um sonegador da minha originalidade? Para dar não é preciso possuir? E quando os navios forem queimados, as cidades saqueadas e os tesouros roubados? Terei algo a dar ou tudo o que tenho e sou foi dispersado? Minha vida desperdiçada?

Pensei nas canções e nas palestras, nos livros, nos shows e nas aulas. Mas nada pareceu ser o bastante. Nem sempre é possível enxergar as mãos do jardineiro em um buquê de flores do campo.

Descemos do carro. Um transeunte passou por nós elogiando a banda DOM. Eu quase lhe disse: querido amigo, agradeça ao Fred e ao Filipe – são eles que compõe, produzem e cantam aquelas canções fantásticas. Eu sou um privilegiado e imerecedor companheiro de viagem apenas.

Agora é madrugada, estou com insônia novamente. Eu perco o sono no meio da noite. Preocupado. Infinitamente. Infinitivamente. Me ocorre então como as pessoas são canções em nossas vidas. O tempo dura muito pouco. Mesmo as mais longas terminam com certa brevidade. O tempo engole. Destrói pirâmides do Egito, consome bibliotecas de Alexandria, cala sinfonias de compositores anônimos.

Insistimos. Teimamos. A vida é a teimosa esperança de ser significativo para os outros. Deixar pegadas que durem mais do que nossos sopros.

Teimamos muito.

Mas no fim, precisamos de humildade para aceitarmos que nada nos pertence. Nem a canção, nem nossos dias. Até a teimosia parece ser dom.

Somos artistas de nós mesmos.

Sem a gente, mundo não seria o mesmo.

E assim cada dia é outro verso. Cada gesto outra rima. Cada elo, cada laço – outro refrão da vida que continua amanhã.

Augusto Cezar Cornelius

Faça um comentário