Bloqueio criativo na composição: o que fazer?

Bloqueio criativo na composição: o que fazer?

O refrão estava perfeito mas eu não conseguia começar a estrofe. Não sabia exatamente o que dizer e como. Ou melhor, até intuía mas não conseguia traduzir em letra e melodia. Tudo o que eu fazia soava como se já tivesse sido dito antes. Empaquei. Onde estava a inspiração? Era o famoso bloqueio criativo.

Todo artista já enfrentou o bloqueio criativo. O poeta Arthur Rimbaud, francês, escreveu até os 19 anos quando abandonou a literatura para se dedicar ao contrabando de armas. Scott Fitzgerald, famoso pelas obras escritas e publicadas aos 20 anos, sofreu com o bloqueio criativo a ponto de se declarar: “sem escolha, sem rumo, sem esperança”. Como superar o bloqueio criativo?

Criatividade

Primeiro precisamos pensar na criatividade como processo e não como dom. Sim, estou realmente dizendo que qualquer um de nós seja ou não artista, pode ser criativo.

Esta semana eu estava com meu filho na piscina do prédio onde moro e observava outras crianças brincando. Os brinquedos eram mais do a princípio se mostravam. Uma bola virou, nas palavras das crianças, “a pedra do saber absoluto”. Um outro perguntou: tio, me empresta? E apontou para a minha muleta. “Claro”, respondi de dentro d’água observando toda a movimentação. E a muleta virou a “espada da vida”, que aparentemente derrotava “a pedra do saber”.

Criatividade tem a ver com ressignificação. Para isto vale realinhar aquilo que muitas vezes não se relaciona.

Pensar na criatividade como um processo e não como um dom, tira a pressão sobre nossos ombros, além de nós preservar da vaidade de possuirmos algo (a soberba).

Tempo

Se criatividade é um processo, este precisa de tempo. Não exercitamos um músculo durante 15 minutos por semana e achamos que ao longo de um mês isso será suficiente para nos fortalecermos. Nós precisamos praticar a criatividade. Pense na quantidade extraordinária de composições que os Beatles fizeram em quartos de hotel mesmo na rotina pesada das suas turnês no auge da Beatlemaníaca. Pense em Picasso em seu atelier ou em Van Gogh e seus passeios diários pelos campos da França, pintando intensamente.

“Esta é a coisa extraordinária sobre a criatividade. Se você manter a sua mente debruçada sobre um determinado assunto de modo amigável porém persistente, mais cedo ou mais tarde você ganhará uma recompensa do seu inconsciente.”

John Cleese

O ambiente

Você já foi a um atelier de um artista plástico? Bem, invariavelmente você verá telas penduradas, materiais encostados na parede, tintas empilhadas no chão. E sempre verá uma poltrona. Ou uma cadeira confortável. Porque todo artista em algum momento se senta diante da sua obra e apenas a observa. Com distanciamento e tranquilidade.

Aplicando ao tema da composição, sugiro que você ouça o que fez. Com distanciamento. Peça que outras pessoas cantem o que você compôs. Sim! Este é um privilégio que eu tenho! Sou um compositor muito desafinado. Alguns dias atrás pude ouvir a cantora Manu Santos interpretando uma das minhas canções e foi surpreendente perceber aspectos que eu jamais havia reconhecido.

Você pode ser distanciar também cantando e gravando a canção em outro tom, outros andamentos, mudança de instrumentação, diferentes fraseados, variando o ritmo. Conhecem a história de Help dos Beatles. Composta por John Lennon em andamento lento ganhou uma pulsação vibrante ao ter seu bpm acelerado pelo produtor George Martin.

Caos

Quando pensamos em caos pensamos em algo a ser evitado pois a noção de caos está diretamente ligada à noção de desordem. Na verdade, caos é possibilidade. Na experiência criativa, o caos é a condição para a ordenação (ou re-ordenação) da obra. Caos então deixa de ser a bagunça onde nada consegue ser encontrado para ser o ambiente onde diversos e variados elementos podem contribuir para a criação.
Não entre em um quarto vazio com seu violão para compor. Esteja perto de livros, filmes, outras musicas, quadros. Pode ser também um ambiente com natureza, uma boa xícara de café e tranquilidade.

Experimente

Um dia, assisti o compositor Maninho dizer para a cantora Aline Venturi: que cheiro, que aroma, você associa a esta canção? Achei fantástico!

Vai compor uma canção? Sugiro antes de começar, experimentar outras coisas:

1 – faça um mapa mental da composição. Aprendi isto com o compositor Rangel Souza da banda Regina Pacis. Associe palavras, referências, ligue os pontos que podem fazer a trajetória da narrativa da canção.

2 – desenhe a sua canção. Ou associe imagens a ela. Podem ser quadros, cenas de filmes, fotografias. Qualquer coisa que ajude outros sentidos a trabalhar para o processo criativo. Lembre-se da pergunta sobre aroma que o Maninho fez para a Aline Venturi.

3 – repita em voz alta muitas e muitas vezes. O cantor e compositor Glenn Frey ainda era um iniciante na composição quando morava no porão da casa do já reconhecido songwriter Jackson Browne. Ele conta que acordava com Jackson repetindo infinitas vezes um mesmo verso ao piano. Depois ele ouvia a chaleira apitar. Os passos de Jackson até o fogão, desligando-o. Uns 5 min de silêncio. E seus passos de volta ao piano, atacando agora o segundo verso de uma nova canção. Repetir em voz alta, gravar, ouvir, repetir, repetir.


“Misericórdia na misericórdia, dentro da misericórdia.”
Thomas Merton

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