Documentos que um músico precisa conhecer: Musicae sacrae disciplina – Papa Pio XII

Documentos que um músico precisa conhecer: Musicae sacrae disciplina - Papa Pio XII

No dia 25 de dezembro de 1955, num dia de natal, o Papa Pio XII publicou esta carta encíclica sobre música sacra. Logo na introdução faz sentir a importância do documento de Pio X e ao mesmo tempo que destaca a necessidade de atualizar e enriquecer as palavras daquele Motu Próprio.

Com uma primeira parte em que faz uma breve narrativa da presença da música desde o antigo testamento, as primeiras comunidades cristãs e o canto gregoriano, logo Pio XII aludi aos esforços da Igreja de conter e adequar os abusos e equívocos musicais cometidos em outras épocas e que termina no reconhecimento da dedicação de “são Pio X, quem realizou uma restauração e reforma orgânica da música sacra, tornando a inculcar os princípios e as normas transmitidos pela antiguidade, e oportunamente reordenando-os segundo as exigências dos tempos modernos”.

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A segunda parte traz um avanço no pensamento da música sacra como expressão artística e experiência religiosa. Pio XII crítica explicitamente o conceito de “arte pela arte”, ideia de que a arte não tem outras leis senão aquelas que procedem da sua própria natureza. Este conceito remonta a Aristóteles e foi desenvolvido e consolidado em meados do século XVIII. Alexander Baumgarten, que criou a palavra “estética” em 1750. Kant, Edgar Allan Poe, Benjamin Constant e Téophile Gautier são alguns nomes desta corrente. A liberdade do artista não é um instinto, nem é cega ou arbitrária. O sentido da arte é reverberar a beleza de Deus.

Tão importante quanto a arte é o artista que a produz e suas motivações e vida:

“(…)o artista sem fé, ou arredio de Deus com a sua alma e com a sua conduta, de maneira alguma deve ocupar-se de arte religiosa; realmente, não possui ele aquele olho interior que lhe permite perceber o que é requerido pela majestade de Deus e pelo seu culto. Nem se pode esperar que as suas obras, destituídas de inspiração religiosa – mesmo se revelam a perícia e uma certa habilidade exterior do autor -, possam inspirar aquela fé e aquela piedade que convêm à majestade da casa de Deus; e, portanto, nunca serão dignas de ser admitidas no templo da igreja, que é a guardiã e o árbitro da vida religiosa.”

Pio XII fala sobre a música litúrgica e contempla também de maneira relativamente nova a música extra-litúrgica. Ele apresenta sua importância e saudável influência: “as melodias desses cantos, compostos as mais das vezes em língua vulgar, fixam-se na memória quase sem esforço e sem trabalho, e, ao mesmo tempo também, as palavras e os conceitos se imprimem na mente, são freqüentemente repetidos e mais profundamente compreendidos”. Faz menção donuso catequético para crianças e do prazer que jovens e adultos podem tirar desta modalidade. Santa alegria, doce conforto e proveito espiritual. “Razão pela qual, também este gênero de música religiosa popular constitui uma eficaz ajuda para o apostolado católico, e, assim, com todo cuidado deve ser cultivado e desenvolvido”, termina esta parte assim afirmando.

Retomando os conceitos de música sacra de Pio X: santidade, caráter artístico e universalidade da música litúrgica, o documento ainda dispõe sobre o canto gregoriano, os textos em latim, os cantos de outros ritos não-romanos, a polifonia, o órgão e outros instrumentos musicais, entre outros assuntos.

A atenção aos cantos populares religiosos, o cuidado com as condições especiais em países de missão e a importância dada ao ensino de música sacra nos seminários e colégios religiosos fazem a parte final de um documento que ainda hoje impressiona pelo cuidado e contexto histórico em que foi produzido.

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