Mundo digital e mundo real: atualizando o discurso para melhor evangelizar

O evangelizador diz: saia da internet! Viva com pessoas reais! E posta uma sequência de fotos de seu lazer e família. E eu fico pensando que, se alguém toma a iniciativa de se desconectar, não deve oferecer mais postagem e sim um hiato na sua presença digital.

Mas no mundo “digital” (pós-digital ou cibernético, como quiser) não postar é não existir.

Há algum tempo tenho substituído o termo mundo “virtual” por mundo “digital”. Já que a virtualidade se opõe a “realidade”. Já o termo digital configura apenas outra forma de ser no mundo.

Do ponto de vista mercadológico, as marcas existem, se vendem e se compram digitalmente. Na dimensão antropológica, vivemos encontros e desencontros (haters e lovers). No espaço da fé, cremos e desacreditamos, abraçamos e intoleramos.

A internet não é mais o mundo por onde entrávamos como se fosse a porta do armário ou  a plataforma 9 3/4 de uma estação de trem.

O termo “internet das coisas” não é mais uma abstração. É uma realidade que nos alcança desde as promoções “imperdíveis” que recebemos baseadas em todos os bigs e smalls datas que deixamos em nossas pegadas nesses mundos entrelaçados (digital e material) até as playlist musicais sugeridas a partir do ambiente que nos rodeia: previsão do tempo, local, tipo de locomoção, forma de escuta (se o plug do fone esta conectado ou se é o Bluetooth do carro).

E a evangelização? Retroativa como sempre? Ou sempre alguns/muitos passos atrás? Lenta em se aggiornar aos nossos tempos os elementos que melhor amplificam a Palavra. Segue o mantra “saia da internet” ou “reconecte-se com o real”. Aliás, é interessante que o mesmo artista/evangelizador que acha que a internet distancia do “real” é o mesmo que celebra em cards os views (“comprados” ou fruto de impulsionamentos pagos) nas redes sociais de broadcasting.

Aplicativos? Expositivos e catalogais. Na contramão da velocidade dos nossos tempos. Nada ou quase nada de interação. Intercomunicabilidade de informações e dados? Não. Mutualidade? Não.

Mas quando teremos uma evangelização que ao invés de sugerir um modo de vida, entra no modo de ser e estar no mundo do homem atual? Quando usaremos os dados (não métricas de redes sociais) para sugerir reflexões, textos, imagens, musicas, locais de celebrações, grupos de oração?

Estou dirigindo pela Avenida das Américas no Rio de Janeiro e conforme meu carro se desloca meu GPS informa minha localização que, somada aos inúmeros smalldatas da minha vida digital, gera uma variedade infinita de ofertas de lojas e shows/espetáculos que seriam do meu interesse. E recebo então mensagens ou ofertas que aparecem oportunamente em minhas redes sociais.

Mas na evangelização esses dados são desprezados. Ou minimizados. Faltam especialistas. Falta método. Falta o ardor missionário de sair da zona de conforto de se fazer igual para tentar a diferença que fará relevância.

Em time que está ganhando não se mexe. Nunca concordei com está frase. Mas na evangelização não pode se acomodar. Não estamos ganhando o jogo da evangelização. É preciso recusar aquela ação de social media burocrática e sem criatividade. É preciso mudar o discurso. Atualizar o jeito e o conteúdo do que se fala.

A cada dia em que fazemos a mesma coisa a evangelização perde um pouco de espaço.

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