Música e memória

Música e memória

Se desde o início a música esteve diretamente ligada ao sentido ritualístico e religioso, sendo este elemento de comunicação com a transcendência e divindades, também por outro lado a música se torna elemento cultural e de memória do povo.

Em tempos anteriores a escrita, a música desempenhou um papel fundamental para a construção da memória dos povos. Toda criança ainda hoje faz das canções um instrumento associativo que ativa a memória para pessoas, lugares, objetos, sentimentos e práticas que fazem parte do convívio social. Também na Grécia antiga percebemos este poder da música enquanto memória do povo. Eram os aedos (em grego clássico ἀοιδός / aoidos, do verbo ᾄδω / aidô, “cantar”).

Os aedos eram artistas, trovadores que iam de cidade em cidade narrando pelo canto sustentado por um instrumento chamado forminx as epopéias do povo.

O mais famoso aedo foi Homero do qual temos a Ilíada e Odisseia, exemplos não são de narrativa literária mas também todo um retrato cultural, religioso, e social do povo e da época.

Na idade média o trovadorismo deu continuidade a esta prática itinerante de sustentação da memória do povo europeu através de seus bardos e menestréis. E nos Estados Unidos da América, na gênese da cultura folk, encontramos muitas dessas canções trazida por imigrantes irlandeses, escoceses e ingleses. Paralelas a elas temos o nascimento das expressões musicais da cultura afro-americana nas canções de trabalho entoadas pelos negros nos campos de colheita, pela música gospel (spirituals) e pelo blues.

Também no Brasil encontramos estes poetas cantadores em uma expressão muito popular. “Os repentistas nordestinos são poetas que vivem do dom de criar versos improvisadamente em feiras, festas e festivais. Representantes da tradição poética nordestina, transmitem através da oralidade valores, saberes, desejos e histórias de sua população. Portadores da memória coletiva do Sertão, estes poetas (re)produzem o habitus das suas pequenas cidades do interior onde quer que estejam, atualizando essa tradição à conjuntura cosmopolita dos grandes centros urbanos”

Mais recentemente podemos destacar também o movimento rap americano. O rap, que quer dizer ritmo e poesia em inglês, surgiu como expressão dos americanos de classes sociais menos favorecidas, na maioria negros, e que juntavam à batida constante uma letra não raro improvisado sobre a realidade que viviam. Assim, todo seu cotidiano violento e pobre ganhava corpo artístico. As famosas batalhas de rap eram verdadeiros tour de force de improviso e criatividade. O impacto para a cultura mundial fountain grande que se tornou um elemento que misturado a outras estéticas está presente em grande parte da música pop feita a partir dos anos 90.

Música e memória sempre andaram juntas. Também na cultura cristã. Tanto na Igreja do Oriente quanto na Latina as expressões musicais religiosas apesar de variáveis mantinham viva a continuidade do anúncio evangélico e a memória da tradição apostólica. Santo Agostinho no séc. IV escreveu um tratado chamado De Música onde fala da oratória, entonação e métrica.

E cita com frequência nas suas confissões a expressão musical da Igreja de Milão, que aos cuidados do bispo Ambrósio, enquanto resistiam as perseguições do império. Ambrósio nos deixou além do exemplo de santidade um legado musical: o canto ambrosiano. Uma das mais antigas heranças da cultura cristã. Como qualquer cantochão, o canto ambrosiano é monofônico e a capella. A Wikipédia diz: “Em relação ao gregoriano, o canto ambrosiano é mais variado em comprimento, ambitus e estrutura”.

Por Vitor Rebello Ramos Mello

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