Música na catequese – propondo o querigma

Música na catequese - propondo o querigma

Dia desses, num encontro de catequese pedi que os adolescentes trouxessem exemplos de músicas que falassem sobre algo que simbolizasse o sagrado para eles. Um jovem de 15 anos me trouxe uma música do Emicida que dizia:

“Quem costuma vir de onde eu sou
Às vezes não tem motivos pra seguir
Então levanta e anda, vai, levanta e anda…”

A letra continuava em tom triste e de revolta. Perguntei onde estava o sagrado para ele naqueles versos. E ele disse: quem compôs estava sofrendo e todo sofrimento é sagrado. Eu perguntei pra ele se ele sabia que aquela expressão “levanta e anda” estava na Bíblia e diante da negativa dele começamos a ler o capítulo 5 de João.

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O documento 107 da CNBB, Iniciação a vida Cristã, sobre o anúncio do querigma enumera suas diversas formas:

1 – Narrativa e testemunhal
2 – Atraente
3 – expositiva
4 – estética
5 – dialogal
6 – litúrgica
7 – caritativa

A música serve como apoio em muitas delas. Mas especialmente, e de um modo ainda mais vigoroso, como expressão estética. Sobre a forma “estética” de anúncio do querigma diz o documento:

“por meio da contemplação da natureza ou de uma obra de arte (pintura, escultura, música, cinema, teatro, poemas, parábolas do mundo moderno), pode-se estimular a busca por Deus.”

Não se trata somente de se utilizar canções religiosas inseridas em dinâmicas ou como ilustração de um conteúdo programático. Apesar do valor intrínseco deste método pedagógico, o que o documento nos alerta é ainda mais interessante e profundo: a beleza é expressão do bem.

“(…) o entenderam os Gregos, quando, fundindo os dois conceitos, cunharam uma palavra que abraça a ambos: « kalokagathía », ou seja, « beleza-bondade ». A este respeito, escreve Platão: « A força do Bem refugiou-se na natureza do Belo ».”

A Igreja tem necessidade da arte para transmitir a mensagem do Cristo, para tornar perceptível o mundo do Espírito, do invisível, de Deus. Precisamos apresentar a beleza através da música em todo espectro de possibilidades.

Temos além do canto gregoriano uma sólida e estreita relação de compositores de música vocal ou instrumental que podem fazer parte do ambiente, do espaço da catequese. Diz o documento 107:

“Cuidar da beleza do espaço litúrgico e catequético é uma tarefa sempre atual. (…) O local destinado à catequese e à formação dos fiéis não se improvisa; deve ser um espaço simples e adequado a essa importante missão. Pode ser uma sala específica, um espaço adaptado no salão paroquial, mas sempre devidamente preparado.”

Nesta preparação podemos inserir a música que propicia a demarcação do espaço sagrado: ao entrar em um ambiente “vestido” de música que convida a oração e reflexão, iluminamos o tempo do encontro, bastante diferente do tempo regido pela máxima produtividade e instrumentalização que tanto abraça a rotina dos catequizandos (crianças, jovens ou adultos). Vestindo de beleza sensível aos ouvidos atuamos na totalidade corpo, mente e espírito.

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A via estética para o anúncio do querigma pode lançar mão não só do senso reconhecidamente artístico de obras já consideradas elevadas mas também e, na minha opinião, principalmente do universo musical em que se inserem os catequizandos. Para isso, se torna mister que conheçamos aqueles a quem apresentaremos a mensagem do Cristo, seus gostos e sensos estéticos, suas referências e influências. Se torna necessário que o catequista se dispa de preconceitos para falar a linguagem adequada a quem anunciamos o Cristo.

“A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro. Por isso, a beleza das coisas criadas não pode saciar, e suscita aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como S. Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: « Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! ». Papa João Paulo II, Carta aos artistas

Por Augusto Cezar

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