Por que cantar? A música a partir de santo Agostinho – um desdobramento

Por que cantar? A música a partir de santo Agostinho - um desdobramento

Aprofundando ainda mais o que falei em meu primeiro texto, gostaria de abordar algumas questões apenas sugeridas anteriormente e citar outras. Em santo Agostinho sempre há o que se dizer, o que se dizer melhor e mesmo o que se dizer, enganando-se.

Começo falando do “De Musica”, um tratado da juventude de Agostinho. Aqui é necessário esclarecer que a concepção de música para santo Agostinho difere muito da nossa experiência musical (após milênios de transformações técnicas, estilísticas e sociológicas). De Musica é um tratado irmão de outros que abordam as artes liberais (gramática, dialética, retórica, etc). Foi escrito no retiro de Cassicíaco em forma de diálogo entre um mestre e um aluno. Um exemplo do estilo utilizado:

“M. – Música é a ciência de modular bem

D. – […] modular deriva-se de “modus” (medida), posto que em toda obra bem feita deve-se guardar a medida […]

M. – […] discutamos primeiro o que é modular, depois o que é modular bem, já que não é em vão que se acrescentou este matiz à definição. Por último, tampouco há que menosprezar que se empregue neste caso o termo ciência, pois que nestes três elementos, se não me engano, está configurada a definição.” (AGOSTINHO, 1988, p. 73-75)

Aqui um esclarecimento sobre o termo música no tempo de santo Agostinho:

“(…) o termo técnico música, que designava na Antiguidade o âmbito de três artes do movimento: a palavra, o canto e a dança. Apesar de Agostinho fazer citações relativas à dança e ao canto, a obra que nos chegou traz somente a palavra poética em sua configuração de metros e versos.“ Rita de Cássia Fucci Amato

Nos primeiros capítulos do De Musica, Agostinho aplica a noção pitagórica de números e medidas à música e segue uma explicação sobre medidas e pés métricos, sílabas breves e longas, ritmo, etc. Por isso, em nosso primeiro texto sobre a música em santo Agostinho abordamos a questão do tempo Chronos e Kayros e o lema dos argonautas e a precisão e imprecisão da vida e da arte.

No livro IV, surge um conceito inovador: a função estruturante do silêncio musical para os versos. Também por este motivo, abordamos no nosso texto anterior “por que cantar: a música em Santo Agostinho” a importância do silêncio (citando a obra de John Cage) e seu banimento em nossa sociedade.

Como diz Rita de Cássia Fucci Amato em “UMA ANÁLISE DOS ASPECTOS FILOSÓFICO-MUSICAIS DO DIÁLOGO DE MUSICA, DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA”: A proposta da elaboração do De Musica passou a ser claramente colocada no Livro VI, onde o princípio fundamental da filosofia pitagórica – o número, essência de todas as coisas – foi colocado como eixo. A autora conclui que “Agostinho concebeu a música como imitação, uma imagem da Beleza espiritual, simultaneamente anterior e superior àquela música sensível e sonora, postura assumida anteriormente por Plotino”.

Sobre o canto da Igreja de Milão

“Não havia muito tempo que a Igreja de Milão começara a adotar o consolador e edificante costume dos cânticos, com grande regozijo dos fiéis, que uniam num só coro as vozes e os corações. […] Foi então que, para o povo se não acabrunhar com o tédio e tristeza, se estabeleceu o canto de hinos e salmos segundo o uso das igrejas do Oriente. Desde então até hoje tem-se mantido entre nós este costume, sendo imitado por muitos, por quase todos os vossos rebanhos de fiéis, espalhados no universo. (Confissões)

São poucas as referências de Agostinho sobre a música em suas confissões. Acima temos uma delas, bastante significativa. Mas parece em contradição com esta outra, onde o bispo de Hipona se sente desconfortável com os prazeres ao ouvir um canto realizado com arte :

“Sinto que as emoções da alma encontram na voz e no canto, conforme suas peculiaridades, seu modo de expressão próprio, um misterioso estímulo de afinidade. Mas o prazer dos sentidos, que não deveria seduzir o espírito, muitas vezes me engana. Os sentidos não se limitam a seguir, humildemente, a razão; o mesmo tendo sido admitidos graças à ela, buscam precedê-la e conduzi-la. É nisso que peco sem o sentir, embora depois o perceba.”

A valorização da expressão estética

Agostinho fala daqui da maior valorização da expressão estética do canto que, antes de elevar a Deus, acaba por distanciar do sentido fundamental do louvor. Para combater este “engano” ele se lança com sua obstinação característica em outra direção:

(…) porém, querendo exageradamente evitar este engano, peco por excessiva severidade; chego ao ponto de querer afastar de meus ouvidos, e da própria Igreja, a melodia dos suaves cânticos que habitualmente acompanham os salmos de Davi. Nessas ocasiões parece-me que o mais seguro seria adotar o costume de Atanásio, bispo de Alexandria. Segundo me relataram, ele os mandava recitar com tão fraca inflexão de voz, que era mais uma declamação do que um canto.”

Ele mesmo diz que oscila “entre o perigo do prazer e a constatação dos efeitos salutares do canto”. Por fim, ele sentencia: “inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja, para que, pelo prazer do ouvido, a alma ainda muito fraca, se eleve aos sentimentos de piedade. E quando me comovem mais os cantos do que as palavras cantadas, confesso meu pecado e mereço penitencia, e então preferiria não ouvir cantar”.

Em resumo:

“É verdade que o belo pode distrair e desviar do Criador, mas d’Ele dimanam as belezas que, através da alma, chegam às mãos do artista” – como diz Arthur Mourão em seu livro “A Música Como Metáfora e Realidade nas Confissões de santo Agostinho”, 2001.

“Para Santo Agostinho, só Deus é um verdadeiro músico pois nele dizer é criar, e criar é musicar e modular porque ele é o summus mo- dus48 . «Tudo criastes com conta, peso e medida»49 . «Numerus, pon- dus, mensura»: eis o acorde fundamental e o compasso ternário que estruturam a criação ab origine.” – extraído do livro Da Ambiguidade da Música na Antiguidade tardia e no Pensamento de Sto. Agostinho, de José M. Silva Rosa, 2004

Por Augusto Cezar Cornelius

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