Quando o evangelizador pensa em desistir

Quando o evangelizador pensa em desistir

“Sabe lá o que é não ter
e ter que ter pra dar?”
Djavan

Fui julgado e etiquetado. Não foi brincadeira entre amigos, não foi uma mensagem privada com a ironia de quem tem liberdade (“onde há amizade, reina a liberdade”, santo Agostinho). Foi público, foi agressivo, foi precipitado. Eu errei, imprudente compartilhei o que não devia e não me cabia, na pressa, numa rodoviária prestes a encarar as 4 horas de volta pra casa depois de fazer palestras para catequistas.

Doeu.

Doeu, não tanto pelo desconhecido. Doeu pelo amigo que tem meu número, minha intimidade. E eu desanimei. Me senti mal, falhado e falhando naquilo que me é mais querido: o desejo de contribuir, de ser relevante para o outro.

“Sabe lá o que é não ter
e ter que ter pra dar?”

Ressoava a canção nos meus ouvidos e no meu coração. Quantas vezes nos sentimos assim, sem nada. Mais vazios, braços num abraço oco. Um vácuo de incompletude.

Na vida sou muitas coisas: filho, irmão, tio, marido e pai. Sou professor, músico, escritor, palestrante. Mas de tudo isso, espremendo bem acho que sou “só” um evangelizador. “Com vocês sou cristão, para vocês sou bispo”, disse santo Agostinho.

Mas quantas vezes o evangelizador se sente de mãos vazias. Seja por qual motivo for. Sente que não tem nada a oferecer. Sente que o que ofereceu até aqui não foi o bastante para construir uma relação mais profunda, generosa, delicada. Sofre as bordoadas diretas que não se lembra ter dado. Etiquetado e carimbado pelos mais próximos sem suspeita de equívoco, sem correção fraterna, sem cuidado no texto.

E quer desistir.

Aqui não tenho soluções a oferecer. Não sou coach ou mentor. Não sou diretor espiritual nem confessor. Sou mais um.
Mas ontem fui a missa. O padre falou de Pedro, lembrou São João da Cruz, disse que o pecado pode nos distanciar de Deus mas nunca distancia Deus de nós. Chorei com espontaneidade.
Recolhi meus retalhos. Contabilizei aprendizados. E recomeço. Hoje e sempre. Todos os dias.

Viktor Frankl, psiquiatra que, na condição de prisioneiro de um campo de concentração nazista, escreveu um livro incrível chamado “Em Busca de Sentido”, dizia que quem tem um “porquê” enfrenta qualquer “como”

Por Augusto Cézar

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