Uma breve partilha como professor de violão inspirado em Agostinho

Uma breve partilha como professor de violão inspirado em Agostinho

Em 1987, dei minha primeira aula de violão. Já se vão mais de 30 anos, inúmeros alunos e situações desde aulas particulares, cursos extracurriculares, workshop e a distância. Aqui vai muito mais do que um texto teórico, uma breve partilha dedicada a cruzar a minha experiência como educador musical (violão) e alguns princípios pedagógicos de Agostinho.

“Qual o método que você utiliza?”

Está foi com frequência a frase que mais ouvi no início da minha prática docente. Por método, meus aspirantes a alunos referiam-se a manuais impressos e que ainda na década de 80 ganhavam certo destaque. Haviam inúmeros títulos como “A escola de Tárrega” ou “Iniciação ao Violão” – este último do grande didata brasileiro Henrique Pinto, a oferta de “métodos” e manuais, passo a passo, num roteiro pré-estabelecido de lições gradativas. Estas publicações permanecem tendo seu valor intrínseco na pedagogia do instrumento mas nunca me senti confortável em adotá-las em minhas aulas de forma regular. No máximo pincei aqui ou ali algum exercício que pontualmente achei interessante para este ou aquele aluno.

Comecei a dar aulas por necessidade financeira, sem suporte teórico pedagógico e baseado na minha própria experiência como violonista e estudante. A autoridade social foi a referência que fez com que fosse impulsionado para a função de professor.

Logo percebi que não poderia reproduzir o mesmo processo que trilhei como estudante pois a minha frente estava uma amplitude larga de diversidade humana e artística. Alguns alunos eram muito mais hábeis que eu tanto na percepção musical quanto no instrumento (mecanicamente). Alguns eram mais jovens e outros muito mais velhos o que me fazia partir de expectativas e experiências muito variadas. Também o repertório de cada um flutuava incrivelmente: desde musica brasileira, pop, jazz, rock, clássica, etc.

Decidi por me adaptar e personalizar o ensino do instrumento. Não foi fácil pois tudo era bastante único e original em cada casa por onde passava. Fisicamente meus alunos eram muito diferentes: o tônus muscular mais fraco de alguns (em especial os muito jovens ou muito idosos), as dimensões físicas variando de idade e sexo e os instrumentos utilizados. Tudo apontava para que eu partisse em cada aula e processo de aprendizado de maneira particular. Mais do que um método, uma metodologia.

“Quero tocar como o Eric Clapton!”

Perdi a conta de quantas vezes ouvi frases similares a esta. Sempre me pareceu razoável que o aluno tivesse uma referência a ser alcançada. A admiração pela técnica, a identificação artística ou mesmo a paridade de pathos social são aspectos importantes num processo de aprendizagem. Mas aqui minha função sempre foi alertar sobre a necessidade de se valorizar a única coisa que temos mesmo se formos inferiores tecnicamente a músicos consagrados e experientes: nossa originalidade. Querer tocar como este ou aquele é abrir mão do seu espaço no mundo!

Com frequência, para estes alunos eu preciso apresentar diversas interpretações de uma mesma peça ou canção. Podem ser as suítes para violoncelo solo de Bach por exemplo. Pablo Casals, Tortelier, Rostropovich ou Yo-yo Ma produziram variadas e originais versões para a mesma partitura que todos eles utilizaram. Eleger a melhor versão se torna impossível. A música se distância dos esportes pois é uma forma de expressão e como tal cada um diz algo único de uma jeito único. Isto é que possibilita que continuemos a fazer arte mesmo após uma história e tradição de grandes artistas. Algo semelhante acontece com a filosofia e teologia.

A notação musical apenas define altura e duração. Timbres, andamentos e dinâmicas de intensidade são indicados e sugeridos de forma subjetiva. O grande artista não é o que toca às notas escritas mas aquele que toca algo além do que está escrito. Transcende sem transgredir.

O instrumento (violão) possibilita muito bem a originalidade de cada indivíduo. Seguramos o instrumento de forma única (ainda que utilizando os mesmos pressupostos ergonômicos) pois nossas variadas dimensões de tronco, braços, mais e dedos relacionam-se de forma única com um instrumento que tem uma fabricação padronizada.

“Dentro do coração, sou o que sou.” – Confissões 10, 3

Agostinho trilhou com a vida e com seu pensamento uma jornada de interioridade, convidado a escutar a Verdade que reside no coração de todo homem. “”O homem se torna pior e empobrece quando, lançando-se a conquista do externo, vive expulsando suas intimidades” (epist. 55,9).

“Quanto tempo leva para aprender a tocar um instrumento?”

Outra frase assustadora na minha trajetória como professor. Como posso prever o futuro? Somos todos únicos, vivendo processos únicos. Não posso prever o desenvolvimento de ninguém. Posso oferecer caminhos e possibilidades baseados na autoridade da minha experiência. Posso trilhar lado a lado com o aluno a jornada em busca deste instrumento interior, em busca da expressão musical mais eloquente, no reforço de uma interpretação que conecta com uma audiência, etc. Mas não posso prever o tempo a ser transcorrido nesta empreitada.

Na minha experiência percebi que o processo de aprendizado não é linear e constante. Aprende-se com o passar do tempo mas principalmente com o passar das experiências. Aprender música e a interpretação de um instrumento requer viver, saborear o convívio artístico e humano. Como disse Agostinho: Não basta conhecer. é preciso saber! (confissoes 3, 6). A etimologia da palavra saber diz muito sobre o aprendizado vivencial da música e do instrumento: ter sabor, ter bom paladar, ter cheiro, sentir por meio do gosto. Saber é sentir, saborear.

Muito constantemente alunos que tem inícios promissores e de desenvolvimento acelerado passam por momentos de aparente estagnação. São casos que requerem um cuidado grande do educador pois é onde acontecem desistências e desencantos.
É preciso para ser um bom professor de violão saber ler os corpos e almas dos alunos. Suas facilidades e dificuldades mecânicas e suas esperanças, alegrias e frustrações artísticas (que não raro caminham de braços dados com seus momentos na vida extra classe).

“Não bastas apenas ser um bom músico.”

Esta frase me foi dita pelo professor Leo Soares na Universidade federal do Rio de Janeiro em um mesmo prédio que havia sido frequentado por Carlos Gomes, Nepomuceno, Villa Lobos. De certa forma, as palavras do mestre apontavam para relação estreita entre as diferentes artes e seus múltiplos contextos. Mas, além, aponta também para a integralidade humana que abrange aspectos psicológicos, sociais, políticos, econômicos, ideológicos, etc. Os exemplos são significativamente eloquentes: desde a rasura que Beethoven fez no manuscrito da sinfonia Eroica, inicialmente dedica a Napoleão, por ocasião da sua frustração ao vê-lo se autoproclamar imperador, o silêncio dos palcos de concerto auto imposto por Casals acompanhando resistência ao regime de Franco na Espanha, ganhando expressividade na música pop em festivais como Woodstock e eventos como Live Aid.

A música não vive de si mesma. Ela nasce do outro para o outro. O poeta Ferreira Gullar ao indagado qual o sentido da vida respondeu: o sentido da vida é o outro! A mesma alteridade podemos aplicar na arte. Como relembra Agostinho: precisamos uns dois outros para sermos nós mesmos!

Como disse o papa João Paulo II: “Através das obras de artes o artista fala e comunica com os outros. por isso, a história da arte não é uma história de obras mas também de homens. as obras de artes falam dos seus autores, dão a conhecer o seu intimo e dão a conhecer a contribuição original que eles oferecem a história da cultura.”

Impossível não lembrarmos o exemplo de dedicação ao outro e verdadeira dimensão do serviço em Agostinho quando eleito padre e bispo, colocava sua distinção como serviço – com vocês sou cristão, para vocês sou bispo. Também o professor de música é músico como o aluno e educador para o aluno.

Por Augusto Cezar

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